Saber mais sobre Garcia de Orta

Biografia

A obra de uma vida:
os Colóquios dos Simples de Garcia de Orta

Teresa Nobre de Carvalho CHAM, FCSH-UNova

Bolseira Pós-Doutoramento FCT

 

 

Nascido em Castelo de Vide, no seio de uma família de cristãos-novos, Garcia de Orta (c.1500-1568) era o filho mais velho de um mercador de Valência de Alcântara – Fernão de Orta, e de uma senhora de Albuquerque – Leonor Gomes. O provável desafogo financeiro dos seus familiares e parentes permitiu que, ainda jovem, Garcia de Orta se dirigisse para as universidades de Salamanca e de Alcalá de Henares onde cursou Medicina. Após completar os estudos regressou à sua terra natal onde praticou clínica sob orientação de um experiente médico da vila. Só depois deste seu tirocínio, tornado obrigatório pelo Regimento do Físico-mor de 1521, Orta prestou provas perante o Doutor Diogo Lopes, o então físico-mor do Reino. Considerado “apto e idóneo para curar” foram-lhe passadas, em Abril de 1526, as devidas autorizações para “praticar medicina” e “andar de mula”.

Ler mais

Alguns dos mestres que encontrou nas Escolas castelhanas parecem ter marcado, de forma indelével, o seu percurso científico. É provável que ao comentário e estudo crítico dos textos, estes estudiosos lhe tenham mostrado a importância de valorizar a observação de exemplares botânicos recolhidos no campo. Assim, integrando razão e experiência Orta poderá, desde cedo, ter tomado contacto com um mundo vegetal que, para lá da análise dos registos livresco, importava observar, registar e descrever.

A curiosidade pelo conhecimento de um mundo em aparente expansão geográfica poderá ter sido um dos factores que determinou a sua mudança para Lisboa, uma cidade cosmopolita e aberta à novidade, para onde se dirigiu no final da década de 1520. Num primeiro momento, Orta teria como objectivo integrar o corpo docente dos Estudos Gerais lisboetas. Apesar de ter apresentado a sua candidatura a diferentes vagas, só em 1530 conseguiu a nomeação para reger a cadeira de Filosofia Natural e, dois anos mais tarde, a disciplina de Filosofia Moral. No final do ano, Orta foi eleito deputado lente do Senado universitário. Em 1534, a rubrica de Garcia de Orta deixou de figurar nos documentos académicos. Esta ausência pode ser justificada pela partida do médico para a Índia, para onde embarcou, a bordo da nau Rainha, na qualidade de físico privado de um velho amigo: o então Capitão-Mor da Armada, Martim Afonso de Sousa.

Como lhe competia pelo cargo que ocupava, Orta acompanhou o fidalgo nas deslocações e missões diplomáticas que este realizou. Nos bazares e mercados das cidades costeiras onde desembarcaram, Orta teve oportunidade de observar os produtos ali negociados e inquirir comerciantes sobre os seus usos, preços, rotas de distribuição e regiões de origem. Nas visitas às cortes do Sultão Bahadur e de Nizamoxa, observou, registou e avaliou as práticas e conhecimentos médico-botânicos de físicos árabes e gentios. Deste contacto com as gentes e as tradições locais, Orta deu-se conta de muitas das imprecisões e falhas registadas nos textos médico-botânicos em circulação na Europa.

 

Quando Martim Afonso de Sousa regressou ao Reino, Orta fixou residência em Goa. Acompanhando os percursos de governantes, prelados ou funcionários régios, Garcia de Orta desenvolveu uma importante actividade clínica tanto no seu gabinete como no hospital da cidade. Para assegurar a viabilidade dos seus negócios, adquiriu um barco, contratou um feitor e recolheu, junto de mercadores, agentes locais e viajantes, aturadas notícias sobre as regiões de origem, rotas de distribuição, mercados e preços de aquisição de drogas, especiarias e produtos de luxo.

Ao fim de quase 30 anos de vivência oriental, publicou Colóquios dos Simples e Drogas e Coisa medicinais da Índia, a obra que divulgou a primeira descrição moderna dos recursos naturais da Ásia.

Redigido em português, em forma de diálogo, Colóquios dos Simples descreveu 59 conversas fictícias ocorridas entre dois médicos ibéricos. A um dos interlocutores, de origem espanhola, o autor chamou Ruano e ao outro, natural de Castelo de Vide, deu o nome de Orta. O primeiro acabara de chegar a Goa a bordo da nau de um seu cunhado, o segundo, há muito que deixara Lisboa e se havia instalado na capital do Estado Português da Índia como médico tanto de gentes simples como de elites políticas e religiosas destacadas no Oriente. Tendo como pano de fundo o pomar, a horta, o gabinete de trabalho, a biblioteca ou a varanda da casa goesa do interlocutor Orta, os produtos asiáticos foram sendo colocados sobre a mesa de trabalho, de forma natural, ao ritmo da vivência quotidiana. Os debates entre os dois homens trouxeram aos leitores uma nova descrição da natureza das Índias Orientais. As animadas discussões entre os sábios foram frequentemente interrompidas pelo vaivém de empregados, servas e moças e pela chegada de mercadores, feitores e visitantes que traziam exemplares, amostras e notícias sobre o uso das drogas, especiarias e pedras do Oriente.

Ao longo de Colóquios dos Simples, Garcia de Orta apresentou uma cuidada revisão dos saberes em circulação na Europa sobre a história, propriedades, usos, origem e mercados de distribuição dos principais produtos asiáticos. Em cada colóquio, os médicos esgrimiram argumentos e debateram conhecimentos. Enquanto Ruano se resguardava em provas textuais, Orta, que as conhecia, bastas vezes as contestou, preferindo valorizar a observação de plantas, pedras e sementes que guardava no seu escritório e revelar as notícias que alguns dos seus informadores e amigos lhe haviam confiado. Evocou ainda a sua ampla experiência clínica no Oriente e atendeu ao saber dos físicos locais dos quais aprendeu as designações, aplicação e utilidade de numerosas drogas indianas.

Atestando uma invulgar autonomia intelectual, Garcia de Orta ousou questionar o saber médico-botânico em circulação. Advertindo o seu interlocutor com um audaz “Não me ponhais medo com Dioscórides nem Galeno porque não hei de dizer senão a verdade” (Colóquio 9º), revelou uma renovada descrição das drogas, especiarias e frutas orientais. Entre muitos outros produtos asiáticos, validou um novo saber sobre canelas, pimentas, gengibre, cravo ou noz-moscada; descreveu deliciosas frutas como mangas, duriões, carambolas, jacas, jangomas, jambolões, mangustões, brindões ou líchias; testemunhou a sua confiança na eficácia terapêutica de drogas como a raíz-da-China ou os bezoares; apresentou plantas maravilhosas como a árvore-triste ou a erva-viva. Atendeu ainda às qualidades das pérolas e pedras preciosas, destacando o valor dos diamantes, esmeraldas, rubis, safiras, jacintos ou granadas.

 

Revelando um optimismo contagiante na sua capacidade de dominar a torrente de novidades sobre a natureza das Índias Orientais que então se desvelava, Orta não se coibiu de afirmar “O que hoje não sabemos, amanhã saberemos” (Colóquio 18º)

Saída dos prelos goeses em 1563, a obra desembarcou em Lisboa no ano seguinte. Para a rápida divulgação europeia do saber contido neste tratado, muito contribuiu a versão latina de Clusius, um dos mais destacados botânicos do seu tempo que colocou em circulação Aromatum, et simplicium (Antuérpia, 1567). As sucessivas edições revistas e aumentadas editadas até 1605, assim como as versões francesas e italianas que delas surgiram, divulgaram por toda a Europa as notícias recolhidas e autorizadas por Orta. Também em Espanha surgiram obras originais baseadas no tratado publicado em Goa que contribuíram para sedimentar e divulgar o saber validado pelos Colóquios. Referimo- nos a Discurso de las plantas aromáticas (Madrid, 1572) da autoria de João Fragoso e Tractado de las Drogas, y medicinas de las Indias Orientales (Burgos, 1578) de Cristóvão da Costa. Estes dois médicos portugueses trouxeram ao espaço imperial falante de castelhano, um renovado conhecimento da natureza das Índias Orientais.

Em pouco mais de meio século, o saber recolhido, testado, validado e autorizado, em Goa, por Orta foi difundido por toda a Europa e pelas Índias. Mas a relevância da sua obra não se limitou à divulgação da novidade. Garcia de Orta inovou também pela ousadia com que, no seu tempo, enfrentou a tradição textual propondo uma nova forma de construção do conhecimento relativo aos recursos naturais, centrada em Goa e fortalecida pela sua ampla rede de informadores. Não se coibindo de corrigir sempre que necessário o saber livresco, Garcia de Orta restituiu um novo conhecimento que, a par da sua experiência clínica e das suas observações de plantas e minerais, considerava os saberes práticos coligidos por agentes da Coroa ou recolhidos entre os informantes locais.

Para além da indiscutível relevância científica desta obra quinhentista é também este arrojo e exemplo de inovação que Garcia de Orta nos trouxe através de Colóquios dos Simples que importa hoje recordar, celebrar e seguir.

 

 

Sobre a vida e obra de Garcia de Orta há hoje uma abundante e actualizada bibliografia (ver aqui). Para outros estudos sobre a vida de Garcia de Orta, ver:

 

 

Boxer, Charles Ralph, Two pioneers of tropical medecine: Garcia d´Orta and Nicolas Monardes.

Londres: The Hispanic and Luso-Brasilian Councils, 1963

Carvalho, Augusto Silva, “Garcia d’Orta”. Revista da Universidade de Coimbra 12 (1934): 61-246

Carvalho, Joaquim Teixeira de, Homens de outros tempos. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1924

Carvalho, Teresa Nobre de, O mundo natural asiático aos olhos do Ocidente. Contribuição dos textos ibéricos quinhentistas para a construção de uma nova consciência europeia sobre a Ásia. Tese de Doutoramento – texto policopiado. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2012

 

Carvalho, Teresa Nobre de, Os desafios de Garcia de Orta. Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. Lisboa: Esfera do Caos, 2015

Carvalho, Teresa Nobre de Carvalho, “Estratégias, patronos e favores em Colóquios dos Simples de Garcia de Orta”, in A.M. Lopes Andrade, C. de Miguel Mora & J. M. Nunes Torrão (coord.), Humanismo e Ciência: Antiguidade e Renascimento. Aveiro, Coimbra, São Paulo: Universidade de Aveiro, Imprensa da Universidade de Coimbra, Annablume, 2015: 63-94

Carvalho, Teresa Nobre de,“A figura de Garcia de Orta traçada pelo Conde de Ficalho. Diálogos entre o biógrafo e Colóquios dos Simples”. Limite vol. 11, 1 (2017): 43-71

Coelho, Laranjo, P. M., “Três médicos cientistas naturais de Castelo de Vide. Garcia d’Orta, Francisco Morato Roma, José António Serrano”. Separata de O Instituto 116 (1953): 22-46

Ficalho, Conde de, Garcia da Orta e o seu tempo. Lisboa: Imprensa Nacional, 1886

Gouveia, Andrade, Garcia de Orta e Amato Lusitano na Ciência do seu tempo. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1985

Liberato, Maria Cândida, “Contribuição para o conhecimento de Garcia de Orta”. Revista de Ciências Agrárias 34, 1 (2011): 110-119

Loureiro, Rui Manuel Loureiro, “Garcia de Orta e os Colóquios dos Simples : Observações de um viajante sedentário” in: A. Mendes & G. Fragoso (org), Garcia de Orta e Alexander von Humboldt: errâncias, investigações e diálogo entre culturas. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2008: 135-145

Loureiro, Rui Manuel, “Information networks in the Estado da Índia, a case study: was Garcia de Orta the organizer of the Codex Casanatense 1889?”. Anais de História de Além- Mar 13 (2012): 41-72

Machado, Diogo Barbosa de, Bibliotheca Lusitana, edição fac-similada. Coimbra: Atlântida Editora, 1966, tomo 2

Nogueira, Fernando, “Garcia de Orta, o médico e o investigador”. Separata de O Médico

124 (1991): 30-39

Novinsky, Anita, “A família marrana de Garcia de Orta, o “correio” dos judeus” in Património Judaico Português – I Colóquio Internacional “O património judaico português”. Lisboa: Associação Portuguesa de Estudos Judaicos, 1996: 357-369

Orta, Garcia de, Colóquios dos Simples, e Drogas he Cousas Mediçinais da India. Goa: Ioannes de Endem, 1563

Orta, Garcia de, Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, edição dirigida e anotada pelo Conde de Ficalho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1891-1895

Pires, António Thomaz, Estudos e notas elvenses, Garcia da Orta. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1923 [1905]

 

O Processo de Catarina de Orta na Inquisição de Goa (1568-1569), transcrição de Miguel Rodrigues Lourenço; introdução e notas de Miguel Rodrigues Lourenço, Susana Bastos Mateus & Carla Vieira. Lisboa: Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, 2018

Révah, Israel S, “La famille de Garcia de Orta”. Revista da Universidade de Coimbra 19 (1960): 407-420

 

2cor

Diáspora

A diáspora da família Orta 

Jorge Martins

Historiador

Estudos sobre Judaísmo e Inquisição

 

A família Orta é um bom exemplo da diáspora judaica portuguesa desde os primórdios – quando a Inquisição começou a sua ação de destruição, não já das comunidades judaicas livres, mas dos judeus forçados ao batismo desde 1497, agora cristãos-novos –, até ao fervilhante século XVII holandês. Com efeito, os cristãos-novos descendentes de Fernão de Orta, judeu castelhano refugiado em Portugal quando da expulsão espanhola de 1492, integraram as mais ativas comunidades judaicas sefarditas, sobretudo as das emblemáticas cidades de Veneza e Amesterdão.

Mas não só. As constantes viagens pela Europa da liberdade de culto judaico, como Antuérpia, Hamburgo, diversas cidades francesas e italianas, e até pelos centros do criptojudaísmo espanhol e a remota Goa, então portuguesa, sem esquecer Israel, Brasil e Angola, atestam esta incrível aventura judaica castelo-vidense. Judaica, sim, e não apenas cristã-nova, visto que, como eles próprios diziam, iam-se “fazer judeus” a Veneza, por exemplo, e daí muitos deles dirigiram-se a Amesterdão e outros centros sefarditas.

Mostramos, no mapa abaixo, alguns dos destinos e roteiros da diáspora dos Orta e seus familiares: Leonor Gomes, mulher de Fernão de Orta; seus filhos Garcia de Orta, Catarina de Orta e Isabel de Orta; seus bisnetos Diogo de Orta, Fernão de Orta e Francisco de Orta e respetivos cônjuges e outros descendentes.

A diáspora da família Orta

2cor

A FAMÍLIA ORTA NA INQUISIÇÃO

Jorge Martins

Historiador
Estudos sobre Judaísmo e Inquisição

A família Orta teve vários membros seus presos pelos tribunais da Inquisição de Évora, Lisboa e Goa. Esta família era oriunda de Espanha e dispersou-se por várias terras de Portugal, Índia, participando ativamente na diáspora judaica (…). Neste trataremos dos casos mais relevantes, a saber: Garcia de Orta e sua irmã Catarina de Orta e os seus sobrinhos-netos Diogo, Fernão, Francisco de Orta, filhos de Manuel de Orta, filho de Catarina de Orta, e de Guiomar Peres.

Com os casamentos endogâmicos e ligações com outras famílias, as vítimas da Inquisição afetaram os cônjuges dos Orta e seus descendentes. É essa genealogia que mostramos abaixo.

Em consequência do decreto de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, dezenas de milhares de judeus vieram refugiar-se em Portugal. Os pais do célebre botânico Garcia de Orta entraram pela fronteira de Marvão e vieram para Castelo de Vide. O pai, Fernão de Orta, mercador, veio de Valencia de Alcántara. De sua mulher Brites Nunes teve um filho chamado Jorge de Orta, e de Leonor Gomes, de Albuquerque, teve Violante de Orta, Catarina de Orta, Isabel de Orta e Garcia de Orta.

(…) Garcia de Orta, por apenas se conhecer uma notícia da exumação de seus ossos, que foram queimados em Goa, no auto-de-fé de 4 de Dezembro de 1580, na sequência de denúncias contidas no processo de sua irmã Catarina.

Notícia do auto-de-fé em que foram desenterrados e queimados os ossos de Garcia de Orta, Goa, 4/12/1580[1]:

“Judaísmo. Auto 4 Dezembro. Nº 13. Goa. Relaxado.

Garcia d’Orta doutor cristão-novo português, defunto, morador que foi nesta cidade, por judeu entregue seus ossos à justiça secular. Inquisidor Bartolomeu da Fonseca.”

 

Garcia de Orta casou com sua prima Brianda de Solis, filha de Henrique de Solis, preso pela Inquisição e que foi para Goa em 1541 com sua filha, que ali casaria com o botânico. Não havendo conhecimento da existência de processo, até porque já tinha falecido, socorremo-nos das denúncias póstumas contra contidas no processo de sua irmã Catarina de Orta. Para tal, muito contribuiu a leitura que Silva Carvalho fez e publicou[2] deste segundo processo de Catarina de Orta[3], presa pela Inquisição de Goa em 1568.

Catarina, interrogada a 4 de Novembro de 1568, disse que havia 6 ou 7 anos (1561/1562), estava em sua casa com seu marido, Leonel Peres, e foi aí ter seu irmão Garcia de Orta, já falecido, que lhes disse, referindo-se a um dia específico, que perdoava Deus os pecados aos judeus se nele jejuassem, não comendo nem bebendo senão à noite, dizendo-lhes que jejuassem ambos nesse dia, que Deus lhe perdoaria seus pecados. E assim jejuaram ela e seu marido. Tratar-se-ia de um jejum judaico, pelo que acabara de denunciar seu irmão como judeu. Provavelmente, como acontecia recorrentemente nos processos inquisitoriais, Catarina denunciava um morto, para fornecer matéria aos inquisidores, que não poderiam o prender e assim conseguir a reconciliação que a livrava da fogueira.

Seis meses depois, a 9 de Maio de 1569, em novo interrogatório, perguntaram-lhe de que se tinha feito a mortalha para seu irmão e ela respondeu que, quando morreu, estavam juntos dele a irmã Isabel de Orta, sua mulher, Brianda de Solis, Beatriz de Solis e outras mulheres:

“E então viu que havia ali «um pano novo comprido cosido alinhavadamente que lhe parece que era duas ou três tiras de pano cosidas uma noutra, as quais tiras eram de pano novo na largura do mesmo pano, que era largo, o qual estava cosido ao modo de lençol comprido, o qual pano lhe parece que foi cosido na mesma câmara em que elas estavam, mas não lhe lembra quem o coseu, nem quem trouxe a mortalha, o qual pano era para o amortalharem nele e não sabe donde veio o dito pano nem quem amortalhou o dito doutor.”

 

Esta pergunta prende-se com a forma judaica de amortalhar os defuntos, pelo que lhe questionaram sobre a camisa que levara. Catarina disse que não se tinha feito camisa de propósito e como o irmão tinha poucas camisas, devido a sua mulher ser nisso avarenta, mandava ela muitas vezes levar camisas para seu irmão vestir enquanto esteve doente, porque se sujava muitas vezes. Quando faleceu, Catarina mandou buscar a melhor camisa que tinha em sua casa, para amortalhar seu irmão e que não vira se era nova ou velha, nem se lembrava a quem a mandara buscar nem quem a trouxera. Então, o inquisidor explicitou o que estava em jogo e quem bem saberia, pela cuidadosa resposta que dera: “sabia ela Ré que amortalhar em roupa nova é costume da lei judaica, disse que já o tinha ouvido dizer antes do tempo da dita mortalha, mas que não lhe lembrou isso ao tempo da mortalha do dito doutor nem sabe de alguém fazer o dito lençol de pano novo por o dito respeito”.

 

 

[1] Figueira, João Delgado, Reportorio geral de tres mil oito centos processos, que sam todos os despachos neste Sancto Officio de Goa…, [Manuscrito], fl.360v.

[2] Carvalho, Augusto da Silva, Garcia d’Orta…, Revista da Universidade de Coimbra,1934, pp.61-246.

[3] ANTT, Inquisição de Lisboa, 1283.

2cor
2cor